SHIRLEY MACLAINE E OS PLEIADIANOS
- Uma linda noite - disse a velha a David. - Seria uma boa noite para os astrônomos.
David esticou os braços por cima da cabeça e suspirou. Depois perguntou, em espanhol:
- Já viu algum disco voador?
- Muitos. E meu tio viu-os voarem direto para o Lago Titicaca e desaparecerem. Ele ficou assustado a princípio, porque pensou que talvez estivesse louco. - Ela apontou a própria cabeça: - Mas depois vários amigos lhe disseram que tinham visto a mesma coisa. Ele sentiu-se melhor.
David tornou a suspirar fundo, como se estivesse aliviado pelo que ela dissera. A mulher foi até o fogão, a fim de pegar guisado para nós. Acompanhei-a.
- O que acha que eles são? - perguntei, sentindo-me como uma dos milhares de turistas que deveriam ter feito a mesma pergunta.
- Ela foi pôr o guisado na mesa.
- São extraterrenos. Todo mundo sabe disso.
- E acha que eles são amistosos?
- Não sei. Mas acho que sim. Eles vivem lá no alto das montanhas e voam seus discos para baixo das montanhas, a fim de que ninguém possa descobri-los.
Ela trouxe pão quente para acompanhar o guisado e perguntou se gostáramos de Ataura. Assenti e sorri. Mas ela não parecia particularmente interessada em prosseguir no tema anterior da conversa; como nossa amiga no carro, os extraterrenos na paisagem não eram importantes, apenas uma curiosidade que não afetava sua vida. A vida cotidiana, tentando sobreviver, tinha muito mais significado para ela. Agora depois de cumprir as amenidades de conversa, ela terminou de nos servir e afastou-se para cuidar de suas outras tarefas.
Olhei para David através do guisado fumegante. Não estava com fome.
- É assim que todos se comportam por aqui - disse ele, como se pedisse desculpa. - Simplesmente estão acostumados. E não entendem por que pessoas como nós ficam tão intrigadas. Riem dos astrônomos que vêm até aqui para estudar e esperar. Dizem que os discos jamais aparecem quando eles estão aqui. Dizem que as pessoas dos discos preferem ficara sós e é assim que os montanheses os tratam. Os montanheses não sabem por que eles estão aqui, mas muitos comentam que estão extraindo minerais das montanhas.
- E não sentem medo deles?
- Parece que não. Dizem que eles nunca fizeram mal a ninguém e até fogem quando alguém se aproxima.
- E muitas pessoas já os viram?
- Shirley, todas as pessoas por aqui com quem conversei têm uma história de discos voadores. Todas, sem exceção.
Fitei-o nos olhos. Estavam calmos e eu diria mesmo que aliviados.
- Onde eu poderia encontrar a sua Mayan, David? Os ombros de David descaíram, como se um imenso peso tivesse sido removido.
- Eu próprio não consigo encontrar Mayan. Sinto uma saudade tremenda e estou sempre voltando às montanhas na esperança de encontrá-la. Ela mudou minha vida. Tudo o que penso agora é uma decorrência do que aprendi com ela. Mayan é a razão por eu ter encontrado tanta paz em mim. E quero transmitir tudo isso a você.
Olhei pela janela do prédio chamado COMIDA para a noite escura dos Andes.
- David, qualquer coisa que eu possa dizer sobre o que subitamente me descobri envolvida aqui seria uma obra-prima de incompreensão.
Levantei-me. Deixamos o restaurante e atravessamos a estrada para o nosso "hotel".
- Mas de qualquer forma, David, obrigada por confiar em mim e ter contado tudo.
A mão dele apertou-me gentilmente o ombro. No escuro, a voz dele parecia estar prendendo na garganta.
- Boa noite, Shirley. E não deixe os percevejos lhe morderem.
Beijei-o no rosto e entrei no meu quarto escuro e úmido. Peguei no sono imediatamente, porque estava um pouco assustada para me manter acordada e pensar em tudo que vinha acontecendo.
"Encarando o problema do ponto de vista mais rigorosamente científico, a pressuposição de que, em meio às miríades de mundos espalhados pelo espaço interminável, não pode haver inteligência, tão maior do que a do homem quanto a dele é maior do que a de uma barata, ou nenhum ser dotado de poderes de influenciar o curso da natureza, tão maiores do que os dele quanto os dele são maiores que os de uma lesma, parece-me não apenas infundada, mas também impertinente. Sem ir além da analogia do que nos é conhecido, é fácil povoar o cosmo com entidades, em escala ascendente, até chegarmos a alguma coisa praticamente indistinguível da onipotência, onipresença e onisciência." - Thomas H. Huxley
Saí para o sol na manhã seguinte completamente revigorada, como se tivesse dormido por uma semana. David estava esperando. Providenciara para mim pão e um pouco do nosso famoso leite quente. Bebemos e comemos enquanto andávamos. Olhei pelas planícies montanhosas na direção dos Picos Gelados no horizonte.
- O que mais se esconde lá por cima além dos discos voadores de que os moradores locais tanto falam? - indaguei, mastigando um pedaço de pão.
David riu.
- Já que você pergunta... Mayan disse que os vales entre os picos são inacessíveis por terra. É por isso que é mais seguro para eles. Quando ela me descreveu pela primeira vez, parecia o Horizonte Perdido.
- David... Mayan disse exatamente de onde era?
- Claro. Das Plêiades.
- E você alguma vez contestou a alegação dela de que era extraterrena?
David riu e cuspiu um pedaço do pão.
- Está brincando? Pensei que tinha entrado num boxe de um fumo errado. Ou que ela tinha. Claro que não acreditei. Mais do que isso: mostrei-me hostil depois que ela falou. E um dia, muito cedo, ao nascer do sol, muito antes de qualquer pessoa por aqui estar de pé, ela me instruiu a ir para a base de um dos contrafortes e ali observar um pico específico. Foi o que fiz. E sabe o que vi?
- O que foi?
Eu não tinha certeza se queria saber.
- Olhei para o céu e exatamente por cima do pico indicado apareceu um disco voador. Pensei que ia ficar doido. Desse momento em diante, ela não teve qualquer problema comigo. Mas devo dizer que ela me censurou por obrigá-la a usar a técnica de "ver para crer". Ela disse que eu deveria ser mais inteligente, manter a mente aberta.
- Ou seja... crédula como eu?
- Eu lhe disse o começo... a verdadeira inteligência consiste
em manter a mente aberta. Isso não faz com que você seja uma tola.
- Não?
(Por que então era assim que eu me sentia?)
David fitou-me nos olhos.
- Não - disse ele, firmemente. - O que está lhe acontecendo é de fato espantoso, Shirl. Para deixá-la completamente atordoada. Como aconteceu comigo. E está ocorrendo terrivelmente depressa. Mas não há jeito de se dizer essas coisas sem ir até o fim. É por isso que parece tão sufocante. Há uma porção de provas externas de objetos voadores não-identificados... de fontes como a Força. Aérea, estações de radar de rastreamento, literalmente centenas de visões múltiplas, pessoas que os viram no mesmo tempo e lugar junto com outras... a tal ponto que não podemos deixar de admitir que existe alguma coisa. Certo?
- Certo.
- Muito bem. Se existem os discos voadores, então alguém tem de, estar controlando-os... pessoalmente ou por controle remoto. E se não são pessoas da Terra... e todos parecem concordar que os objetos fazem coisas que a nossa tecnologia ainda não sabe como... então só podem ser extraterrenos.
Ele me observava atentamente para verificar como eu estava
absorvendo o que dizia.
- É uma pena que todos precisem de uma prova particular, Shirley. Pelo que Mayan me disse, os extraterrenos são superiores porque compreendem o processo do domínio espiritual da vida. Ela diz que a ciência, a ciência realmente avançada, e a compreensão espiritual são a mesma coisa. Até Einstein disse isso. Portanto, se você foi fundo na compreensão espiritual, por que não tentar fazer a ligação com a tecnologia superior? Mas se não lhe parece certo, então esqueça.
Esquecer? Mas como era possível esquecer uma coisa assim? David ficou me observando pensar... de "mente aberta", como ele diria.
- Não tem qualquer problema com a reencarnação, não é mesmo, Shirley?
- Não... não depois de tudo o que li sobre o assunto e o que experimentei pessoalmente. Quando desempenho um papel assumo o manto emocional de outra pessoa. O que me permite compreender que a alma pode fazer a mesma coisa cada vez que reencarna.
Podia me lembrar dos muitos atores e atrizes que conhecera e manifestavam seu espanto pela origem de sua inspiração quando se confrontavam com papéis que eram totalmente estranhos a tudo o que já haviam experimentado. Muitas vezes baseávamos sentimentos que devíamos expressar em ocorrências de nossas próprias vidas, mas com uma frequência maior tínhamos de extrair sentimentos e reações que jamais conhecêramos e, até onde podíamos saber, estavam além de nossa estrutura de referências. Contudo, o milagre da inspiração levava-nos a alguma compreensão mais profunda; e quando éramos particularmente bons, havia uma tênue ressonância em nossas consciências, lembrando-nos que já passáramos emocionalmente por aquilo antes.
Talvez os atores fossem os reencenadores espirituais das experiências da alma. Talvez fosse por isso que me parecesse tão familiar. Minha mente tornou a vaguear para aquelas noites de verão obsedantes, em que eu ficava estendida na relva com a luneta. Era como se eu lembrasse os "sentimentos" que experimentara ao contemplar as estrelas. Sentia que eram familiares. Era tão simples assim. Estaria recordando um contato com o conhecimento da vida? Eu ou qualquer outra pessoa que vivia na Terra hoje já teria experimentado o contato com os "ajudantes" de outros lugares celestiais, durante a nossa longa luta através dos traumas do tempo? John McPherson e Ambres haviam dito isso. Mas quem seriam "eles"?
Mas que merda, pensei, está perfeitamente claro... eles são espíritos desencarnados que acreditam que o mundo sempre foi visitado
por extraterrenos. David é um espírito encarnado que acredita na mesma coisa... Minha mente pulou para a Bíblia e me perguntei se Ezequiel e Moisés, por exemplo, haviam experimentado as mesmas circunstâncias, há muitos séculos, que David julgava ter passado agora com a sua Mayan. Era mais fácil naquele tempo, pensei. Milagres e maravilhas eram praticamente uma experiência cotidiana ... todos acreditavam nessas coisas naquele tempo.
Oh, Deus, pensei... exatamente como as pessoas por aqui...
Perguntei a David se poderíamos ficar sentados ao sol por algum tempo. Encontramos um trecho coberto de relva entre as rochas da montanha e nos deitamos. Respiramos fundo por alguns minutos e ficamos olhando para o céu.
Tentei apagar tudo de minha mente e apenas "ser". Senti que David fazia a mesma coisa. Passarinhos cantavam, o rio murmurava. Um cachorro preto pequeno passou por nós, deixando a sua marca numa moita e depois se afastou, na maior felicidade.
Cerca de meia hora deve ter passado. Não falamos nada. Era agradável sentir-se em paz. E, depois, ouvi David dizer alguma coisa. A voz estava embargada, sonolenta. Ou talvez fosse eu que estivesse sonolenta. Olhei para ele.
- O que disse?
David suspirou, virou-se de lado e fitou-me.
- Quer conversar sobre Mayan? Ela disse muita coisa a seu respeito.
- A meu respeito? Não conheço qualquer Mayan, David. Ela é véu problema.
David sorriu.
- Ela não é um problema... embora possa ter criado problemas para você.
- Como assim?
- É por isso que precisamos conversar a respeito dela. Pensei por um momento.
- Importa-se se eu gravar?
- De jeito nenhum.
Peguei o gravador e apertei o botão de gravar. Se aquilo estava realmente acontecendo, eu queria ser capaz de prová-lo mais tarde para alguém. Verifiquei se a fita estava correndo direito e, depois, falei:
- Pode me contar toda a história agora, David?
- Em primeiro lugar, lembra-se de um cara que apareceu em sua casa... há uns 10 anos, com três pedras enviadas pelo chefe masai que você conheceu tão bem?
Minha memória voltou ao passado. E recordei alguém tocando a campainha de minha casa em Encino, cerca de dois anos depois da minha viagem africana, em meados dos anos 60. Ele não se identificara. E não me causara qualquer impressão. Entregara-me três pedras coloridas, que dissera serem amuletos mágicos para a saúde, sabedoria e segurança. O chefe masai o encontrara num safari e lhe perguntara se era da América. Ele respondera que sim e o chefe perguntara então se me conhecia. Ele dissera que não, mas já ouvira falar de mim. E o chefe lhe pedira: "Pode entregar isto a ela?" E o cara dissera que sim, que daria um jeito de me entregar.
E foi então que me ocorreu.
- Como soube desse cara?
- Era eu.
- Você?
Minha voz se elevou num grito estrangulado.
- Isso mesmo. Fique calma, Shirl. Para dizer a verdade, eu não sabia na ocasião o que estava acontecendo. Tudo o que sabia era que o homem me dera as pedras e pedira para entregá-las a você. Pensei simplesmente "até aí"... e entreguei as pedras.
- E o que mais? - indaguei, beligerante, sentindo-me de alguma forma invadida.
- Muito tempo depois, Mayan me falou a respeito. Explicou o que significava. Disse que eu fora encaminhado a você porque nos conhecêramos em vidas anteriores e algum dia você haveria de querer uma prova disso.
- Mas por que todo o segredo? Por que não me disse quem era durante todo esse tempo?
Mesmo enquanto perguntava, eu já sabia a resposta.
- Você não estava: pronta, não é mesmo? O importante era entregar as pedras... mesmo antes que qualquer dos dois soube de que se tratava. E depois Mayan tinha de convencer-me. E agora eu tenho de convencer você...
- Acho que faz sentido, se há necessidade de prova. Mas qual é o objetivo? O que significa tudo isso?
- Em última análise, Shirley, significa que você deve se tornar uma mestra. Como eu. Só que numa escala muito mais ampla.
- Numa escala mais ampla?
- Isso mesmo.
- Mas o que está querendo dizer com isso? Não posso ensinar. Não tenho paciência. Sou apenas uma aprendiz.
- Mas você gosta de escrever, não é mesmo?
Santo Deus!, pensei. Terei de escrever um livro sobre tudo isto? Eu planejava fazer isso subconscientemente? Era por isso que levava o gravador a toda parte e tomava anotações ao final de cada dia?
- Ela achava que você, com sua propensão mental específica, poderia escrever um relato interessante e informativo a respeito de sua incursão pessoal por essas questões, talvez ensinar as pessoas a fazer a mesma coisa.
Isso fazia sentido? Meus outros dois livros haviam sido um relato, pessoal de minhas viagens e pensamentos através da África, índia, Butão, América, política, show business e China. Eu deveria agora escrever um relato sobre minhas vidas anteriores, Deus e extraterrenos!? Ri da lógica absurda da situação.
- Quem acreditaria se eu escrevesse para publicação a respeito de tudo isso?
- Ficaria surpresa. Há muito mais pessoas fazendo isso do que imagina. Todos estão motivados pelo desejo de conhecer a verdade. E todos mesmo.
- A verdade? Que verdade?
- A verdade simples de conhecer a si mesmo. E conhecer a si mesmo é conhecer a Deus.
- Está querendo dizer que essa é a Grande Verdade?
- Exatamente. O problema, Shirley, é que é tão simples. Deus é simplicidade. O homem é complexidade. O homem se fez complexo. Mas anseia pela compreensão, pela verdade por trás da complexidade. E aqueles que começam a compreender desejam partilhar a sua compreensão.
- Mas seria apenas a minha compreensão. Não seria necessariamente a verdade.
- Só há uma verdade, Shirley... que é Deus. Você pode ajudar outros a compreenderem Deus através de si mesmos, partilhando o relato de como compreendeu Deus através de si mesma.
Senti um aperto no estômago e no coração. Era verdade que eu adorava partilhar minhas aventuras através do que escrevia. Mas parecia-me absurdo dizer agora que eu escreveria para relatar como encontrara Deus. Nem mesmo tinha certeza se acreditava naquela coisa chamada Deus. Estava interessada pelas pessoas. A ideia de ter vidas anteriores me interessava porque oferecia uma explicação de quem eu era hoje.
- David, posso assumir minha identidade pessoal e como passei a ser quem eu sou. Mas não posso dizer que acredito em Deus.
- É isso mesmo, Shirley. Você acredita em Deus. Você conhece Deus. A crença implica aceitação de alguma coisa desconhecida. Você simplesmente esqueceu o que já sabe.
Fiquei sentada em silêncio, ao sol, a mente em turbilhão. Eu esquecera o que já sabia. David pareceu sentir o meu relance de medo, porque se apressou em acrescentar:
-Não acha que escolheu o campo de trabalho errado se receia a humilhação pública?
David esticou os braços por cima da cabeça e suspirou. Depois perguntou, em espanhol:
- Já viu algum disco voador?
- Muitos. E meu tio viu-os voarem direto para o Lago Titicaca e desaparecerem. Ele ficou assustado a princípio, porque pensou que talvez estivesse louco. - Ela apontou a própria cabeça: - Mas depois vários amigos lhe disseram que tinham visto a mesma coisa. Ele sentiu-se melhor.
David tornou a suspirar fundo, como se estivesse aliviado pelo que ela dissera. A mulher foi até o fogão, a fim de pegar guisado para nós. Acompanhei-a.
- O que acha que eles são? - perguntei, sentindo-me como uma dos milhares de turistas que deveriam ter feito a mesma pergunta.
- Ela foi pôr o guisado na mesa.
- São extraterrenos. Todo mundo sabe disso.
- E acha que eles são amistosos?
- Não sei. Mas acho que sim. Eles vivem lá no alto das montanhas e voam seus discos para baixo das montanhas, a fim de que ninguém possa descobri-los.
Ela trouxe pão quente para acompanhar o guisado e perguntou se gostáramos de Ataura. Assenti e sorri. Mas ela não parecia particularmente interessada em prosseguir no tema anterior da conversa; como nossa amiga no carro, os extraterrenos na paisagem não eram importantes, apenas uma curiosidade que não afetava sua vida. A vida cotidiana, tentando sobreviver, tinha muito mais significado para ela. Agora depois de cumprir as amenidades de conversa, ela terminou de nos servir e afastou-se para cuidar de suas outras tarefas.
Olhei para David através do guisado fumegante. Não estava com fome.
- É assim que todos se comportam por aqui - disse ele, como se pedisse desculpa. - Simplesmente estão acostumados. E não entendem por que pessoas como nós ficam tão intrigadas. Riem dos astrônomos que vêm até aqui para estudar e esperar. Dizem que os discos jamais aparecem quando eles estão aqui. Dizem que as pessoas dos discos preferem ficara sós e é assim que os montanheses os tratam. Os montanheses não sabem por que eles estão aqui, mas muitos comentam que estão extraindo minerais das montanhas.
- E não sentem medo deles?
- Parece que não. Dizem que eles nunca fizeram mal a ninguém e até fogem quando alguém se aproxima.
- E muitas pessoas já os viram?
- Shirley, todas as pessoas por aqui com quem conversei têm uma história de discos voadores. Todas, sem exceção.
Fitei-o nos olhos. Estavam calmos e eu diria mesmo que aliviados.
- Onde eu poderia encontrar a sua Mayan, David? Os ombros de David descaíram, como se um imenso peso tivesse sido removido.
- Eu próprio não consigo encontrar Mayan. Sinto uma saudade tremenda e estou sempre voltando às montanhas na esperança de encontrá-la. Ela mudou minha vida. Tudo o que penso agora é uma decorrência do que aprendi com ela. Mayan é a razão por eu ter encontrado tanta paz em mim. E quero transmitir tudo isso a você.
Olhei pela janela do prédio chamado COMIDA para a noite escura dos Andes.
- David, qualquer coisa que eu possa dizer sobre o que subitamente me descobri envolvida aqui seria uma obra-prima de incompreensão.
Levantei-me. Deixamos o restaurante e atravessamos a estrada para o nosso "hotel".
- Mas de qualquer forma, David, obrigada por confiar em mim e ter contado tudo.
A mão dele apertou-me gentilmente o ombro. No escuro, a voz dele parecia estar prendendo na garganta.
- Boa noite, Shirley. E não deixe os percevejos lhe morderem.
Beijei-o no rosto e entrei no meu quarto escuro e úmido. Peguei no sono imediatamente, porque estava um pouco assustada para me manter acordada e pensar em tudo que vinha acontecendo.
"Encarando o problema do ponto de vista mais rigorosamente científico, a pressuposição de que, em meio às miríades de mundos espalhados pelo espaço interminável, não pode haver inteligência, tão maior do que a do homem quanto a dele é maior do que a de uma barata, ou nenhum ser dotado de poderes de influenciar o curso da natureza, tão maiores do que os dele quanto os dele são maiores que os de uma lesma, parece-me não apenas infundada, mas também impertinente. Sem ir além da analogia do que nos é conhecido, é fácil povoar o cosmo com entidades, em escala ascendente, até chegarmos a alguma coisa praticamente indistinguível da onipotência, onipresença e onisciência." - Thomas H. Huxley
Saí para o sol na manhã seguinte completamente revigorada, como se tivesse dormido por uma semana. David estava esperando. Providenciara para mim pão e um pouco do nosso famoso leite quente. Bebemos e comemos enquanto andávamos. Olhei pelas planícies montanhosas na direção dos Picos Gelados no horizonte.
- O que mais se esconde lá por cima além dos discos voadores de que os moradores locais tanto falam? - indaguei, mastigando um pedaço de pão.
David riu.
- Já que você pergunta... Mayan disse que os vales entre os picos são inacessíveis por terra. É por isso que é mais seguro para eles. Quando ela me descreveu pela primeira vez, parecia o Horizonte Perdido.
- David... Mayan disse exatamente de onde era?
- Claro. Das Plêiades.
- E você alguma vez contestou a alegação dela de que era extraterrena?
David riu e cuspiu um pedaço do pão.
- Está brincando? Pensei que tinha entrado num boxe de um fumo errado. Ou que ela tinha. Claro que não acreditei. Mais do que isso: mostrei-me hostil depois que ela falou. E um dia, muito cedo, ao nascer do sol, muito antes de qualquer pessoa por aqui estar de pé, ela me instruiu a ir para a base de um dos contrafortes e ali observar um pico específico. Foi o que fiz. E sabe o que vi?
- O que foi?
Eu não tinha certeza se queria saber.
- Olhei para o céu e exatamente por cima do pico indicado apareceu um disco voador. Pensei que ia ficar doido. Desse momento em diante, ela não teve qualquer problema comigo. Mas devo dizer que ela me censurou por obrigá-la a usar a técnica de "ver para crer". Ela disse que eu deveria ser mais inteligente, manter a mente aberta.
- Ou seja... crédula como eu?
- Eu lhe disse o começo... a verdadeira inteligência consiste
em manter a mente aberta. Isso não faz com que você seja uma tola.
- Não?
(Por que então era assim que eu me sentia?)
David fitou-me nos olhos.
- Não - disse ele, firmemente. - O que está lhe acontecendo é de fato espantoso, Shirl. Para deixá-la completamente atordoada. Como aconteceu comigo. E está ocorrendo terrivelmente depressa. Mas não há jeito de se dizer essas coisas sem ir até o fim. É por isso que parece tão sufocante. Há uma porção de provas externas de objetos voadores não-identificados... de fontes como a Força. Aérea, estações de radar de rastreamento, literalmente centenas de visões múltiplas, pessoas que os viram no mesmo tempo e lugar junto com outras... a tal ponto que não podemos deixar de admitir que existe alguma coisa. Certo?
- Certo.
- Muito bem. Se existem os discos voadores, então alguém tem de, estar controlando-os... pessoalmente ou por controle remoto. E se não são pessoas da Terra... e todos parecem concordar que os objetos fazem coisas que a nossa tecnologia ainda não sabe como... então só podem ser extraterrenos.
Ele me observava atentamente para verificar como eu estava
absorvendo o que dizia.
- É uma pena que todos precisem de uma prova particular, Shirley. Pelo que Mayan me disse, os extraterrenos são superiores porque compreendem o processo do domínio espiritual da vida. Ela diz que a ciência, a ciência realmente avançada, e a compreensão espiritual são a mesma coisa. Até Einstein disse isso. Portanto, se você foi fundo na compreensão espiritual, por que não tentar fazer a ligação com a tecnologia superior? Mas se não lhe parece certo, então esqueça.
Esquecer? Mas como era possível esquecer uma coisa assim? David ficou me observando pensar... de "mente aberta", como ele diria.
- Não tem qualquer problema com a reencarnação, não é mesmo, Shirley?
- Não... não depois de tudo o que li sobre o assunto e o que experimentei pessoalmente. Quando desempenho um papel assumo o manto emocional de outra pessoa. O que me permite compreender que a alma pode fazer a mesma coisa cada vez que reencarna.
Podia me lembrar dos muitos atores e atrizes que conhecera e manifestavam seu espanto pela origem de sua inspiração quando se confrontavam com papéis que eram totalmente estranhos a tudo o que já haviam experimentado. Muitas vezes baseávamos sentimentos que devíamos expressar em ocorrências de nossas próprias vidas, mas com uma frequência maior tínhamos de extrair sentimentos e reações que jamais conhecêramos e, até onde podíamos saber, estavam além de nossa estrutura de referências. Contudo, o milagre da inspiração levava-nos a alguma compreensão mais profunda; e quando éramos particularmente bons, havia uma tênue ressonância em nossas consciências, lembrando-nos que já passáramos emocionalmente por aquilo antes.
Talvez os atores fossem os reencenadores espirituais das experiências da alma. Talvez fosse por isso que me parecesse tão familiar. Minha mente tornou a vaguear para aquelas noites de verão obsedantes, em que eu ficava estendida na relva com a luneta. Era como se eu lembrasse os "sentimentos" que experimentara ao contemplar as estrelas. Sentia que eram familiares. Era tão simples assim. Estaria recordando um contato com o conhecimento da vida? Eu ou qualquer outra pessoa que vivia na Terra hoje já teria experimentado o contato com os "ajudantes" de outros lugares celestiais, durante a nossa longa luta através dos traumas do tempo? John McPherson e Ambres haviam dito isso. Mas quem seriam "eles"?
Mas que merda, pensei, está perfeitamente claro... eles são espíritos desencarnados que acreditam que o mundo sempre foi visitado
por extraterrenos. David é um espírito encarnado que acredita na mesma coisa... Minha mente pulou para a Bíblia e me perguntei se Ezequiel e Moisés, por exemplo, haviam experimentado as mesmas circunstâncias, há muitos séculos, que David julgava ter passado agora com a sua Mayan. Era mais fácil naquele tempo, pensei. Milagres e maravilhas eram praticamente uma experiência cotidiana ... todos acreditavam nessas coisas naquele tempo.
Oh, Deus, pensei... exatamente como as pessoas por aqui...
Perguntei a David se poderíamos ficar sentados ao sol por algum tempo. Encontramos um trecho coberto de relva entre as rochas da montanha e nos deitamos. Respiramos fundo por alguns minutos e ficamos olhando para o céu.
Tentei apagar tudo de minha mente e apenas "ser". Senti que David fazia a mesma coisa. Passarinhos cantavam, o rio murmurava. Um cachorro preto pequeno passou por nós, deixando a sua marca numa moita e depois se afastou, na maior felicidade.
Cerca de meia hora deve ter passado. Não falamos nada. Era agradável sentir-se em paz. E, depois, ouvi David dizer alguma coisa. A voz estava embargada, sonolenta. Ou talvez fosse eu que estivesse sonolenta. Olhei para ele.
- O que disse?
David suspirou, virou-se de lado e fitou-me.
- Quer conversar sobre Mayan? Ela disse muita coisa a seu respeito.
- A meu respeito? Não conheço qualquer Mayan, David. Ela é véu problema.
David sorriu.
- Ela não é um problema... embora possa ter criado problemas para você.
- Como assim?
- É por isso que precisamos conversar a respeito dela. Pensei por um momento.
- Importa-se se eu gravar?
- De jeito nenhum.
Peguei o gravador e apertei o botão de gravar. Se aquilo estava realmente acontecendo, eu queria ser capaz de prová-lo mais tarde para alguém. Verifiquei se a fita estava correndo direito e, depois, falei:
- Pode me contar toda a história agora, David?
- Em primeiro lugar, lembra-se de um cara que apareceu em sua casa... há uns 10 anos, com três pedras enviadas pelo chefe masai que você conheceu tão bem?
Minha memória voltou ao passado. E recordei alguém tocando a campainha de minha casa em Encino, cerca de dois anos depois da minha viagem africana, em meados dos anos 60. Ele não se identificara. E não me causara qualquer impressão. Entregara-me três pedras coloridas, que dissera serem amuletos mágicos para a saúde, sabedoria e segurança. O chefe masai o encontrara num safari e lhe perguntara se era da América. Ele respondera que sim e o chefe perguntara então se me conhecia. Ele dissera que não, mas já ouvira falar de mim. E o chefe lhe pedira: "Pode entregar isto a ela?" E o cara dissera que sim, que daria um jeito de me entregar.
E foi então que me ocorreu.
- Como soube desse cara?
- Era eu.
- Você?
Minha voz se elevou num grito estrangulado.
- Isso mesmo. Fique calma, Shirl. Para dizer a verdade, eu não sabia na ocasião o que estava acontecendo. Tudo o que sabia era que o homem me dera as pedras e pedira para entregá-las a você. Pensei simplesmente "até aí"... e entreguei as pedras.
- E o que mais? - indaguei, beligerante, sentindo-me de alguma forma invadida.
- Muito tempo depois, Mayan me falou a respeito. Explicou o que significava. Disse que eu fora encaminhado a você porque nos conhecêramos em vidas anteriores e algum dia você haveria de querer uma prova disso.
- Mas por que todo o segredo? Por que não me disse quem era durante todo esse tempo?
Mesmo enquanto perguntava, eu já sabia a resposta.
- Você não estava: pronta, não é mesmo? O importante era entregar as pedras... mesmo antes que qualquer dos dois soube de que se tratava. E depois Mayan tinha de convencer-me. E agora eu tenho de convencer você...
- Acho que faz sentido, se há necessidade de prova. Mas qual é o objetivo? O que significa tudo isso?
- Em última análise, Shirley, significa que você deve se tornar uma mestra. Como eu. Só que numa escala muito mais ampla.
- Numa escala mais ampla?
- Isso mesmo.
- Mas o que está querendo dizer com isso? Não posso ensinar. Não tenho paciência. Sou apenas uma aprendiz.
- Mas você gosta de escrever, não é mesmo?
Santo Deus!, pensei. Terei de escrever um livro sobre tudo isto? Eu planejava fazer isso subconscientemente? Era por isso que levava o gravador a toda parte e tomava anotações ao final de cada dia?
- Ela achava que você, com sua propensão mental específica, poderia escrever um relato interessante e informativo a respeito de sua incursão pessoal por essas questões, talvez ensinar as pessoas a fazer a mesma coisa.
Isso fazia sentido? Meus outros dois livros haviam sido um relato, pessoal de minhas viagens e pensamentos através da África, índia, Butão, América, política, show business e China. Eu deveria agora escrever um relato sobre minhas vidas anteriores, Deus e extraterrenos!? Ri da lógica absurda da situação.
- Quem acreditaria se eu escrevesse para publicação a respeito de tudo isso?
- Ficaria surpresa. Há muito mais pessoas fazendo isso do que imagina. Todos estão motivados pelo desejo de conhecer a verdade. E todos mesmo.
- A verdade? Que verdade?
- A verdade simples de conhecer a si mesmo. E conhecer a si mesmo é conhecer a Deus.
- Está querendo dizer que essa é a Grande Verdade?
- Exatamente. O problema, Shirley, é que é tão simples. Deus é simplicidade. O homem é complexidade. O homem se fez complexo. Mas anseia pela compreensão, pela verdade por trás da complexidade. E aqueles que começam a compreender desejam partilhar a sua compreensão.
- Mas seria apenas a minha compreensão. Não seria necessariamente a verdade.
- Só há uma verdade, Shirley... que é Deus. Você pode ajudar outros a compreenderem Deus através de si mesmos, partilhando o relato de como compreendeu Deus através de si mesma.
Senti um aperto no estômago e no coração. Era verdade que eu adorava partilhar minhas aventuras através do que escrevia. Mas parecia-me absurdo dizer agora que eu escreveria para relatar como encontrara Deus. Nem mesmo tinha certeza se acreditava naquela coisa chamada Deus. Estava interessada pelas pessoas. A ideia de ter vidas anteriores me interessava porque oferecia uma explicação de quem eu era hoje.
- David, posso assumir minha identidade pessoal e como passei a ser quem eu sou. Mas não posso dizer que acredito em Deus.
- É isso mesmo, Shirley. Você acredita em Deus. Você conhece Deus. A crença implica aceitação de alguma coisa desconhecida. Você simplesmente esqueceu o que já sabe.
Fiquei sentada em silêncio, ao sol, a mente em turbilhão. Eu esquecera o que já sabia. David pareceu sentir o meu relance de medo, porque se apressou em acrescentar:
-Não acha que escolheu o campo de trabalho errado se receia a humilhação pública?